Junto com o projeto final, tivemos de entregar para a coordenação do curso uma espécie de diário do TCC. A ideia é contar mais detalhes da apuração e algumas curiosidades que aconteceram durante o projeto. Agora publico aqui alguns trechos para vocês terem uma ideia de como foi nossa aventura.
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A escolha do tema
A idéia de fazer um trabalho de conclusão de curso sobre o maior quadrinista pornográfico brasileiro não apareceu da noite para o dia. Ano passado, Lucas Frasão escreveu uma reportagem para a revista produzida por alunos da Cásper Líbero, a Esquinas de S.P., coordenada pela jornalista e professora Rosangela Petta. Publicada no mês de agosto, a edição foi recheada da pautas sobre o tema “E lá se foram 60 anos”, referência ao aniversário do curso de jornalismo, cuja primeira turma é de 1947. A pauta sobre Carlos Zéfiro foi uma sugestão da professora. Ela surgiu porque, segundo a editora carioca A Cena Muda, que relança as obras de Zéfiro desde 2005, um dos primeiros catecismos é Sara, de 1949. Quase uma sessentona, portanto.
Para fazer a reportagem, o jornalista Juca Kfouri foi uma das principais fontes. Foi ele quem revelou a identidade de Alcides Caminha – o nome verdadeiro de Carlos Zéfiro – na edição 196 da revista Playboy, em novembro de 1991, com Ísis de Oliveira na capa. Além disso, a empresária Adda Di Guimarães, proprietária de A Cena Muda, e Otacílio d’Assunção, ex-editor da revista MAD e autor do livro O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro (1984) também foram entrevistados. Outra importante fonte de conhecimento dos originais de Zéfiro foi o site www.carloszefiro.com, criado pelo norte-americano Dave Braga, que morou no Rio de Janeiro quando garoto. “Desde os 12 anos, eu pedia nas bancas do Leblon: ‘tem sacanagem?’ Se te conheciam, eles vendiam, se não, eu tinha que pedir para os meus amigos comprarem”, diz ele. “Quero escanear todos os que tenho, para dar de volta ao Brasil essa educação que recebi naquela época.”
Como teria sido a vida do pacato funcionário público do Rio de Janeiro, que se escondeu sob o pseudônimo por mais de 40 anos porque tinha medo de perder o cargo de datiloscopista no Ministério do Trabalho? É a mesma pessoa que chegou a compor sambas maravilhosos – pelo menos segundo registros oficiais –, entre eles A Flor e O Espinho, ao lado de ninguém menos que Nelson Cavaquinho. Desenhista e escritor, apesar dos erros de português. Casado, infiel, pai de cinco filhos, morador do subúrbio. Carinhoso ou bruto, dependendo da situação. Um estudante que concluiu o segundo grau com mais de 50 anos de idade, adorava ler jornais e assistia ao Jornal Nacional e que morreu sem curtir muito a merecida fama de artista, pouco depois de ganhar destaque na mídia, no início dos anos 1990.
Após 16 anos de sua morte, pensamos que seria difícil encontrar pessoas que tivessem convivido bastante com ele – e realmente foi. Amigos e parentes com idade próxima à dele teriam, hoje, quase 90 anos. Por esse motivo, especialmente, ficamos apreensivos com a idéia de escrever a biografia dele como TCC.
Primeiros contatos
Um dos assuntos que mais preocupou a dupla no início da apuração foi justamente a falta de informações sobre Alcides Caminha. Sabíamos que o criador de Carlos Zéfiro certamente teria uma história de vida muito interessante para ser contada, mas não tínhamos idéia do que iríamos encontrar. Enquanto conversávamos sobre a estratégia quase óbvia de começar a pesquisa tentando falar com o máximo de familiares de Alcides ainda vivos, criamos um blog na internet para contar os bastidores do projeto. A idéia era desenvolver um canal na rede que nos ajudasse a encontrar mais pessoas interessadas em Carlos Zéfiro – ou, até, possíveis parentes que resolvessem entrar em contato conosco a partir do site.
No dia 21 de fevereiro, pouco antes de entregar o pré-projeto, conseguimos falar com Gil Caminha, um dos filhos de Alcides. O telefone dele estava na lista telefônica. Ele se interessou bastante pelo projeto e disse para marcarmos uma entrevista que ele nos receberia em Angra dos Reis, onde mora, no Rio de Janeiro. Sabíamos que Alcides havia morado no Rio e que por isso teríamos que fazer algumas viagens para lá durante o ano para entrevistar os familiares.
No dia seguinte, depois de conversar com a assessoria de imprensa do SBT, Lucas foi até o estúdio da emissora na Rodovia Anhanguera, em São Paulo, buscar uma cópia da entrevista que Alcides deu ao programa Jô Soares Onze e Meia, logo depois de ter assumido a autoria dos catecismos para a revista Playboy. Começávamos a entender melhor a figura do homem sobre o qual conversamos o ano inteiro. O pré-projeto foi aprovado na semana seguinte e, um mês depois, colocamos seu conteúdo no blog.
As viagens
Decidimos fazer a primeira viagem ao Rio logo no início de abril depois de termos lido grande parte da bibliografia. Nessa época, o noticiário marcava 54 mortes por dengue no estado do Rio, especialmente em Angra e na capital. Saímos de São Paulo às 5 horas da madrugada do sábado e fomos de carro até Angra dos Reis em um fim de semana para encontrar com Gil em uma rua do centro da cidade. Nos assustamos quando o vimos pela primeira vez, porque fisicamente ele lembrava bastante as fotos de Alcides que tínhamos visto na internet. Gil nos levou até seu restaurante na cidade, que estava vazio naquele sábado à noite, e lá conversamos com ele por cerca de três horas.
Ele não conseguiu se lembrar de alguns detalhes da vida do pai, principalmente da infância, o que já era de se esperar. Mesmo assim, conseguimos enxergar bem o primeiro esboço do que seria a vida de Alcides – e quais assuntos teríamos de pesquisar mais a fundo para poder escrever. Ficou combinado que Gil entraria em contato com os irmãos para ver quem mais toparia conversar com a gente.
Mas, diante da dificuldade para viajar até o Rio cada vez que tivéssemos uma entrevista, insistimos com ele para conversarmos com seu irmão Reinaldo, o Dico, ainda naquele fim de semana. Dico concordou em nos receber em sua casa, no subúrbio do Rio, no dia seguinte. Cansados depois da viagem e da longa entrevista, chegamos na capital fluminense pela esburacada Avenida da Brasil antes do horário do almoço. Mas demoramos mais de uma hora para encontrar o endereço exato de Dico, que mora na Parada de Lucas, um dos bairros escolhidos como cenário para representar a Cidade de Deus no filme de mesmo nome. O segundo filho de Alcides com quem conversamos falou com a gente por mais cerca de duas horas em um boteco perto de sua casa. A Lei Seca ainda nem existia, o que nos permitiu conduzir a entrevista de maneira mais, digamos, desinibida.
Estava difícil marcar uma segunda ida ao Rio, até porque os outros parentes de Alcides, com quem queríamos conversar, ainda não nos conheciam. Precisamos abrir mão do feriado de Corpus Christi e dos Jogos Universitários de Comunicação para passar um tempo maior viajando. Mas foi essa a nossa chance de fazer mais entrevistas, conhecer a casa em que Alcides morava no bairro de Anchieta e reunir material suficiente para escrever um copião com 50 mil toques para entregar no fim de junho e qualificar o trabalho de conclusão para a próxima fase.
Nessa viagem, ficamos hospedados por cinco dias na casa de amigos no bairro do Catete, e conhecemos Neli, filha de Alcides, e Vitor, neto dele, que acabaram se tornando personagens fundamentais durante o projeto, justamente porque ainda moram na casa do pai e avô, na Rua Cardoso de Castro. Foi lá que encontramos a maior parte do acervo fotográfico que faz parte do livro. Neli nos deu uma entrevista com mais de três horas de duração e lembrou de detalhes e outras informações que os irmãos Gil e Dico não tinham falado. Ao mesmo tempo, aproveitávamos para fazer as mesmas perguntas com o objetivo de cruzar dados e confirmar histórias. Afinal, nossa pesquisa foi baseada basicamente nessas entrevistas. Nessa viagem também conversamos com alguns amigos de Alcides, como o policial reformado Rubens Peixoto, que conviveu com o desenhista por três décadas. Apesar da grande amizade, ele tinha receio em abrir o jogo sobre tudo o que passou com Alcides.
Neli ainda nos acompanhou, no dia seguinte, até a casa de sua irmã Sueli, com quem acabamos conversando por menos tempo, mas nos forneceu dados bastante interessantes. Ainda tivemos tempo de conhecer a Lona Cultural Carlos Zéfiro, que foi criada em 1999 no mesmo bairro para homenagear Alcides. Aproveitamos, em uma tarde livre, para fazer um passeio de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas, antes de seguir novamente para o bairro Anchieta e conversar com Valquíria, a Quirinha, irmã de Alcides que nos ajudou a lembrar de muitos detalhes da infância dele e se tornou outra importante peça no trabalho. Mas não conversamos com Alayde, irmã mais velha de Alcides, porque ela não estava interessada em dar entrevista. Nem com Conceição, que foi amante de Alcides, mas não falou com a gente depois de sermos educadamente expulsos por seu marido, conhecido no bairro como Ferrari. Numa outra viagem ao Rio, vimos Ferrari saindo de casa. Era a oportunidade perfeita para tentar marcar uma conversa com Conceição. Para nossa surpresa ela se dispôs a falar e combinamos o retorno para o dia seguinte, quando ela teria tempo. Ligamos para confirmar a entrevista, mas ela havia mudado seu discurso dizendo que não tinha nada para falar de Alcides – ao fundo, ouvíamos a voz do marido.
Decidimos, para a qualificação, fazer um “copião” do projeto, sem se preocupar com o texto final. Pensamos que ainda faltava apurar muito para arriscar fazer a versão final do livro. O “copião” ajudou a visualizar – e organizar – as partes da história de Alcides que precisamos detalhar mais.
No dia 15 de agosto, depois de o projeto ter sido aprovado para a fase seguinte, tivemos mais uma reunião com nosso orientador. Foi umas das mais longas – durou quase duas horas. Até então estávamos tranqüilos com relação ao projeto, mas depois da conversa deu uma sensação de que não teríamos tempo suficiente. O orientador estava confiante no nosso trabalho, mas achávamos que ainda faltava muita coisa pra fazer. Ele sempre colocava nossos pés no chão dizendo que uma biografia feita em apenas nove meses não poderia dar conta de cada detalhe da vida de Alcides. Mesmo assim, nossa vontade era buscar tudo o que podíamos. Em vez de começar a escrever o texto definitivo, como recomendou nosso orientador, decidimos que ainda faltava ir algumas vezes ao Rio encontrar parentes de Alcides.
No fim de agosto, fomos ao Rio em um sábado à noite para voltar na segunda pela manhã. Assim podíamos aproveitar o domingo. Refizemos algumas entrevistas, pedindo mais detalhes em episódios específicos. Recebemos a visita surpresa de Alayde, que conversou conosco por quase meia hora, tempo suficiente para lembrar de detalhes que nenhum outro havia lembrado. Enriquecemos muito o material visual do trabalho. Conseguimos imagens de Zéfiros (como ele mesmo escrevia no verso das fotos) no colo, na escola, no trabalho e com amigos. Depois, cansados, encaramos o trânsito de Botafogo, Copacabana e Ipanema até chegar ao albergue que reservamos.
Voltamos a São Paulo já preocupados com a próxima viagem. Tanto que resolvemos ir ao Rio pela quinta vez segundo fim de semana de setembro. Também foi a quinta vez sem aproveitar a praia, apesar dos 38 graus que os termômetros marcavam naquela época. Fomos direto para Anchieta, que fica a aproximadamente 40 minutos, de carro, a partir do albergue em Ipanema.
A idéia era visitar os familiares primeiro, mas decidimos conhecer o cemitério onde Alcides Caminha está sepultado, no bairro vizinho de Ricardo de Albuquerque. Na administração do cemitério, falamos com um dos funcionários para saber onde encontrar a sepultura. Para isso é necessário saber o dia do sepultamento, mas nós só sabíamos o mês e ano da morte, o que felizmente foi suficiente. Foi interessante quando o funcionário anotava a localização da sepultura de Alcides no papel. Nós contamos que ele era o Carlos Zéfiro e na hora ele parou e nos disse: “É verdade? Mesmo? Está enterrado aqui? Pô, eu não sabia! Eu sempre lia as revistinhas dele. Vou anotar o local pra mim, depois eu visito ele.” Isso mostra que Alcides conseguiu se esconder bem sob o pseudônimo de Carlos Zéfiro, mesmo no próprio bairro. Só depois dessa viagem conseguimos reunir material suficiente para escrever o livro. Só faltava fazer algumas entrevistas por telefone ou em São Paulo mesmo. Por exemplo, com o jornalista Juca Kfouri, que recebeu Marcio no dia 18 de setembro em uma das salas da rádio CBN, onde trabalha no centro da capital paulista.
Conseguimos definir completamente o projeto gráfico do trabalho, criado pela designer Lucia Farias, no dia 17 de outubro, já na reta final para entregar o trabalho. Mas a essa altura já estava tudo encaminhado. Fizemos um plantão no penúltimo fim de semana do mês para jogar todos os textos nas páginas, definimos os nomes dos convidados para o dia da banca e enviamos o livro para a gráfica.
O blog
A página criada por nós nos surpreendeu pela quantidade de acessos desde o início. Até a entrega do livro, no início de novembro, mais de 12 mil pessoas passaram pelo site. Ao todo, foram 49 posts e 66 comentários. Nos meses de maio, junho e julho, a média foi de 1.200 visualizações por mês. Em agosto, setembro e outubro, esse número subiu para 2.300. A página mais acessada foi a Histórias e Frases, na qual, na verdade, não colocamos muito material. A segunda mais vista foi no início da Olimpíada, que propunha a existência de um Carlos Zéfiro chinês, uma vez que o mercado de publicações eróticas por lá é censurado.
Além das brincadeiras, o blog nos permitiu contar os bastidores da apuração, encontrar outros interessados em Carlos Zéfiro e também postar notícias que tinham a ver com o assunto. No dia 23 de julho, por exemplo, ocorreu a 20ª edição do HQ Mix – a maior premiação de quadrinhos do país. Em 2008, o cartunista Laerte foi o mais premiado, levando quatro estatuetas para casa. Muito tempo antes, em 1991, Alcides foi homenageado com o troféu “Mestre dos Quadrinhos” pela importância de sua obra, na quarta edição do prêmio. Esse troféu nós encontramos na casa em que ele morou, em uma das viagens que fizemos ao Rio.
No blog também pudemos colocar, por exemplo, o curta metragem feito pelo cineasta Reinaldo Pinheiro em 1995 para homenagear Carlos Zéfiro. O vídeo A Desforra da Titia fez um sucesso imediato, com mais de 15 mil visualizações em três dias, mas o YouTube censurou o vídeo por julgar que ele tinha conteúdo inadequado.
Em setembro, ainda, o editor da revista Ele Ela acessou nosso blog e pediu uma entrevista sobre o projeto. A edição de outubro dedicou uma de suas páginas para falar da biografia de Carlos Zéfiro, que na época nem estava pronta. E o blog acabou alcançando mídia também fora do país, como no site do projeto de gráficas populares colombiano chamado Populardelujo. “Conheci o trabalho de Zéfiro há alguns meses e me parece maravilhoso. Por isso fiquei muito feliz ao encontrar há alguns dias esse blog, onde falam do livro que estão escrevendo. A história de Zéfiro é incrível”, escrever o dono do site, Esteban Ucrós, a partir de Bogotá. Depois de passar esse ano inteiro pesquisando sobre Alcides, podemos dizer que concordamos.
Meus fraternos!
Segundo o finado sambista Guilherme de Brito, que junto com o genial Nelson Cavaquinho, compôs belos sambas(inclusive A Flor e o Espinho), Alcides Caminha não teve nenhuma participação nessa obra de arte(A Flor e o Espinho). como o Nelson era um vendedor de parceria contumaz(Cartola que o diga….cansou de ficar p…com Nelson, devido essa prática) é provável que o Alcides tenha levado uma mordida do Nelson que o colocou como parceiro nesse samba.